18 de Novembro de 2009

3º Direito



Quando as manhãs húmidas lhe impregnavam os ossos, mudava de humor. Enroscava-se nos camisolões grossos tricotados pela mãe e no cachecol que uma antiga namorada lhe dera. A que lhe dissera que já não o amava pelo telefone. E que agora quando se cruzava com ele, fingia não o conhecer. Nem ao cachecol de flanela vermelha que lhe dera. A humidade das manhãs de Outono avermelhavam-lhe os nós dos dedos. E escrever tornava-se um acto penoso. Mais penoso ainda que as purgas da alma. E por isso lia. Saía cedo e sentava-se na esplanada do café de toldo verde. Limpava com um lenço de papel a cadeira que ainda escorria a condensação da noite. Com outro limpava os óculos permanentemente embaciados e lia. Pelo menos durante dez longos minutos até ela chegar à paragem de autocarro. Em frente. Ela acenava-lhe ligeiramente com a cabeça. Quase esboçava um sorriso. Ele pensava se não seria melhor convidá-la para um café. E esperava que ela se voltasse e quase sorrisse de novo. Mas o autocarro chegava mais uma vez. Esperaria pela noite. Quando ela vinha fumar um cigarro à varanda. Um dia estendeu-lhe o maço. Ele recusou. Tenho asma. Pareceu-lhe que ela esboçava um sorriso de ironia. Escondeu o queixo cheio de acne, no cachecol. Desde essa noite que deixara de conseguir imaginar-se a fazer amor com ela. Imaginava-se nú, humilhado pela falta de ar. Mas hoje, apesar da dor nos ossos e no ego iria-a convidá-la. Pediu um chá de limão para poder tomar o comprimido para a gripe. E enquanto se assoava ela chegou. Abraçada, aos beijos com um homem que lhe percorria com as mãos o corpo perfeito, sem pudor. A raiva apoderou-se dele. Quando o imaginou descalçando-lhe as botas de vinil, seu preciso objecto de fantasias e erecções, de todas as noites. Sentiu um imenso desprezo por ela, bebeu os dois necessários goles de chá quente para engolir o comprimido. Assoou-se mais uma vez e quando ela quase lhe sorriu, voltou-lhe a cara. E ao entrar no prédio imaginou. Que a humilhava. Que a desprezava. E quando estava quase a transbordar de sarcasmo e indiferença, um dos bombeiros pediu que se desviasse para que pudessem passar com o saco preto.

16 de Novembro de 2009

Rés-do-chão Direito



Houve uma manhã em que o velho do casaco de xadrez não desceu. Quem o notou foi a mulher do rés-do-chão, que todos os dias o via atravessar a rua em direcção ao quiosque. Todos os dias dez minutos antes das nove, enquanto ela do outro lado da cortina de bordado inglês ordinário, bebia o café por uma chávena almoçadeira. Mas naquela manhã não ouviu o barulho seco da porta da rua. Nem o viu atravessar a rua de blocos de granito. E pensou que seria melhor bater-lhe à porta não fosse ele estar doente. No preciso momento em que pensou isso, a porta da rua abriu-se. A sua. Pousou a chávena almoçadeira em cima do pano de crochet e olhou fixamente a porta. O filho entrou. A angustia de todas as manhãs apoderou-se dela. Quis gritar-lhe, abanar-lhe os ombros, mas quando os olho pisados dele pousaram nela, ela apenas murmurou de olhos baixos, fugindo da magreza excessiva dele. Vai para o teu quarto. Não acordes o teu pai. Do outro lado da cortina de bordado inglês, o homem do quiosque pendurava o jornais. Ao fundo do corredor uma porta fechou-se. A pena de si foi tanta que se sentou. Para se poder lembrar melhor da sua má sorte. Que lhe pareceu tão grande que só se voltou a lembrar do homem do casaco de xadrez no dia seguinte. Quando viu os bombeiros a leva-lo dentro de um saco preto.
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11 de Novembro de 2009

2º Esquerdo

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Tenho saudades do tempo em que morava num prédio. Das vidas empilhadas em betão. Das luzes que me iluminavam quando me debruçava sobre a varanda. A luz ténue do segundo direito, onde morava um velhote de quem nunca soube nome. Vestia sempre o mesmo casaco de xadrez de gola coçada. Tinha um gato de pelagem tão coçada como a gola. E trazia-lhe todos os dias uma latinha de comida de alumínio dourado, juntamente com o jornal diário. Quando a luz se acendia de noite, imaginava-o, sentado num sofá de cor já gasta, com o jornal resvalado nos joelhos. E o gato. De pelagem velha e amarela, aos seus pés. Havia também a luz do rés-do-chão direito. A mulher abria a janela depois do jantar e sacudia a toalha. Cantarolava sempre a mesma canção. Depois suspirava e por um instante ficava imóvel com a toalha esquecida por entre as mãos. Lembro-me de uma toalha com pequenos galos vermelhos, amarfanhada entre umas mãos de unhas roídas. Onde ela um dia limpou os olhos esborratados de chorar. Às sextas à noite a luz do terceiro esquerdo apagava-se mais cedo. Nessa casa vivia uma rapariga solteira. De rosto magro e anguloso. Tinha uns olhos grandes delineados de uma forma vulgar com lápis azul. Talvez para condizer com a infeliz franja escorrida que lhe cobria a testa cheia de acne. Saía com as suas botas de vinil. Um dia descobri que distribuía mantas e sopa todas sextas à noite, aos sem abrigo.
Tenho saudades do tempo em que morava no prédio cheio de gente de quem nunca soube o nome. Mas que apareciam à janela sacudindo as migalhas das suas estórias. Hoje da minha varanda só sinto o cheiro dos toros de azinho queimado nas lareiras feitas em série revestidas a moleanos. E oiço o ladrar dos cães quando as luzes das casas se apagam. E sinto saudades.
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8 de Novembro de 2009

O Fim de um ciclo


Gosto de pensar na vida como uma sucessão de ciclos. Este, o do Gineceu, foi um dos mais especiais para mim. Pelo que encerra, pelo prazer que me deu em escrever as breves 72 páginas que o constituem. Mas também para ele urge o fim de um ciclo. Uma travessia acarinhada tanto por aqueles que sempre acompanharam os textos silenciosos esquecidos na gaveta, como por aqueles, muitos a quem eu nunca vi o rosto, ou a quem nunca nem a voz ouvi, partilharam de forma tão generosa o seu carinho, o seu apoio.

Eu e as minhas quinze mulheres vamos estar na Ler Devagar, no próximo dia 14 pelas 18 horas. Levamos connosco outra mulher muito especial que embarcou de peito aberto nesta aventura: A Isabel Claro (Bolota), que leva com ela as suas estórias do Gineceu, contadas pelas mãos delas, moldadas pelo o seu talento. Todas nós vos esperamos lá.

Retomo a minha travessia no Deserto dentro de uns dias. Espero que desta vez com a frequência com que alguns reclamam… Bem hajam!



26 de Outubro de 2009

Valentina

Da janela do café avistam-se meia dúzia de árvores. Retorcidas e mal podadas. A rapariga limpa as mesas com afinco. Fala aos solavancos um português esdrúxulo. O cabelo pintado de louro palha fica bonito com a luz de fim de tarde de Outono. E o sorriso por entre as maçãs do rosto pronunciadas e excessivamente ruborizadas, cheira a terra molhada. De vez em quando repousa os olhos redondos e aguados na janela. Aquece-os no Outubro morno que corre por entre as árvores de alinhamento. Depois os braços leitosos retomam os movimentos circulares nas mesas de vidro. Encontrei-a uma noite no museu. Tocava-se Chopin no meio de charutos e sapatos de salto. Ela estava encostada à porta. Juntamente com um homem de rosto redondo e avermelhado. Na penumbra sobressaiam as raízes escuras no cabelo cor de palha. Uma linha negra contornava azul diluído dos olhos. Ambos escutaram a música de olhos cerrados. No fim, ela inclinou a cabeça sobre os ombros dele suspirando e ele afagou-lhe o cabelo cor de palha. Mais do que afecto houve saudade naquele gesto. Da janela do café avistam-se meia dúzia de árvores. A rapariga dos olhos aguados esqueceu-se de si enquanto os dedos tamborilam distraídos sobre a arca dos gelados. Lá fora o vento excessivamente morno adiou o Outono, mas os dedos marcam no branco e preto a memória da chuva fria, cujo cheiro se esboça no seu sorriso.

23 de Outubro de 2009

Da memória

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Os velhos têm todos os dedos longos. Esquálidos. Como se a sombra da morte lhes alongasse umas mãos que apenas agarram memórias. Lembrei-me de ti, ontem. O homem falava de um Deus e dos livros dos Homens. Mas eu não ouvia. Só lhe via as mãos. E por isso me lembrei delas. Das tuas.
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